Comida afetiva × comida saudável: é preciso escolher?
- ayaterapiasintegra
- 29 de mar. de 2022
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Comida saudável pode ser, ao mesmo tempo, um nome atraente e desafiador. Houve um tempo em que comer em casa o bom arroz com feijão recém cozidos, a salada fresca e o tempero de alho e sal eram suficientes para o posto. Tudo aquilo que comíamos na rua era de qualidade inferior e mais pobre nutricionalmente, mesmo o sanduíche mais elaborado. Na escola pública, havia algumas “vendinhas” de doces, mas ninguém dispensava o feijão tropeiro do almoço, o mingau de aveia ou a polenta. Os nomes eram descomplicados: era “comida de verdade” ou era “bobagem”. Na simplicidade do almoço da minha mãe ou da minha avó, não falávamos em comida low carb, fit, funcional, orgânica, sem glúten, sem lactose e tantas mais. Comer errado era escolher primeiro a sobremesa ou deixar algo sobrando no prato. Não éramos ricos, mas não passamos por qualquer necessidade. Fui educada para comer o que estava posto à mesa, sempre farta e colorida. (E era rebelde porque a minha predileção sempre foi o açúcar). Dos prazeres mais “naturais”, estava colher jabuticabas no pé, chupar cana de açúcar e laranja que o meu avô plantava e comer milho verde cozido. Cada um desses sabores, ainda agora, fazem minha boca salivar e impregnam minha memória de sensações. Porém, em algum ponto do meu desenvolvimento para a vida adulta, quase perdi esta sensibilidade. Vivi um longo trecho da minha adolescência sofrendo com distúrbios alimentares e passei outros 10 anos experimentando dietas radicais que afetaram meu organismo, ora fazendo com que eu ficasse anêmica, ora fazendo com que eu ficasse inchada como um balão. Mesmo a minha experiência com o veganismo, que eu considero positiva e responsável por despertar o meu paladar para os vegetais e a minha curiosidade na cozinha, justamente pelo seu caráter restritivo implícito acabou por ativar em mim uma memória antiga de gatilhos por compensações, fazendo com que eu tivesse muitos episódios sofríveis de compulsão alimentar. Quando eu comecei a estudar a nutrição ayurvédica, foi como se uma avó muito antiga afagasse meus cabelos, deixasse eu sentar em seu colo e dissesse com voz amável e musical: Ei, menina! Você está em casa agora! Isso porque os princípios que esta ciência ensina, como comer com fome real e devagar; agradecer pelo prato e pelas mãos de quem o preparou; usar as ervas do quintal e os alimentos da estação; esperar o tempo da digestão; comer comida simples, nova, cozida e bem temperada, entre tantos outros, ressoam com a minha experiência da infância. É claro que a indústria alimentícia cresceu e hoje há infinitas opções que não existiam naquela época, ainda mais no interior. Também há a questão da salubridade da comida. Além da volumosa oferta de congelados e processados, nosso país é hoje o maior consumidor de agrotóxicos do mundo em números absolutos. E o cenário para os próximos anos não é exatamente promissor. De acordo com o Greenpeace, desde o início do governo atual, 290 substâncias tóxicas foram liberadas para utilização, das quais 32% já são proibidas na União Europeia. Ou seja, muitos alimentos encontrados a rodo nas prateleiras dos supermercados estão nos envenenando ao invés de nos nutrir. Parece impossível não relacionar nosso estilo de vida e consumo ao aumento de toda sorte de desequilíbrios, desde alergias alimentares até tumores e doenças autoimunes. Para completar o cenário, o saudável tornou-se tão comercial e etiquetado, que é preciso tomar cuidado para não ficar paranoico com rótulos, antissocial e terminar gastando muito dinheiro em coisas consideradas imprescindíveis, como alguns suplementos alimentares, que, na maioria das vezes são dispensáveis numa alimentação variada e equilibrada.
Aos meus pacientes e alunos nos cursos, eu sempre repito que é preciso encontrar o seu “Ayurveda”. Que a ciência da vida é, antes de tudo, a vida de cada um, em consonância com o meio em que vivemos e com o universo. Antes de criar novas regras, é preciso entender e aceitar os princípios ayurvédicos na mente e no coração, associando-os à sua experiência e adaptabilidade. O pior erro que podemos cometer ao nos alimentar é passar 24h por dia pensando em comida: o que vou comer daqui a pouco? Será que haverá opção para mim? Será que eu preciso me preparar? Quanto eu preciso me exercitar para comer isto? Um dos meus professores indianos me disse algo que jamais esquecerei: “É preciso ser gentil e comer o que lhe é oferecido. Se não for do seu agrado, coma pouco e agradeça. Se não estamos em nossa casa, o sábio a fazer é manter o equilíbrio”. Essas palavras me tornaram mais tranquila em relação à minha alimentação, mesmo quando estou “desrespeitando” um princípio ayurvédico e desfiaram o véu da demanda por novidades e novas oportunidades de consumo. Viver em harmonia com nossos desejos, com a nossa memória e com a nossa natureza é viver em liberdade.
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